quarta-feira, 2 de maio de 2018

"Querido Diário" #18- "Wild River": A morte de quem não existe


Querido Diário,

Esta semana vamos falar de um filme. Baseado em factos reais, este filme é uma metáfora para um assunto real, atual e que não tem solução à vista. O diretor e também roteirista Taylor Sheridan- nomeado para um Óscar e Globo de Ouro com “Hell or Higt Water”- procura denunciar a verdadeira realidade de um sitio onde a brancura da neve é manchada pela violência e os atos desumanos.

O filme fala de Cory Lambert (Jeremy Renner) que encontra uma jovem indígena morta com sinais de violação e quase congelada. Os casos são frequentes naquela pequena comunidade dos Estados Unidos, onde habitam várias comunidades indígenas e todos os dias são encontradas mulheres estupradas. A falta de policiamento local leva a que não sejam feitas investigações, até pelo facto de que este povo é o único que não tem sensos, ou seja, não há dados de quem existe ou não existe. O homem que encontra o corpo é caçador de coiotes e ajuda desde logo Jane Banner (Elisabeth Olsen) a resolver o caso, pois o comportamento do homem é muitas vezes semelhante aos dos animais selvagens.

Seria esperado que “Wind River” mantivesse o mistério acerca do assassinato da jovem até os protagonistas descobrirem o culpado. Mas isso não acontecesse. O clímax da ação dá-se num simples flash back, onde Cory e Jane não aparecem. É como se o filme criasse uma divisão: no inicio tudo parecia indicar que Cory fosse o destaque, mas com a chegada de Jane ao caso, parece haver uma divisão entre o protagonismo do filme. No momento alto, com a cena que mostrava o crime, vemos novos personagens a ganhar destaque. Esta divisão foi arriscada, mas funciona bem. No final do filme vemos que todas as personagens evoluíram e cresceram com o caso da morte desta jovem.

O filme tem várias mensagens que tornam a sua história interessante mas carece de atenção por parte do espectador, para que se sejam captadas. O facto de ser uma mulher a investigar o caso e também a preocupação do protagonista em ajudar- que mais tarde se descobre o porquê- dão ritmo à narrativa, que se vai desenrolando lentamente. “Wind River” sabe os momentos em que tem que acelerar, para que não se torne monótono e perca a atenção do espectador. A banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis acompanha os momentos de suspense e ação da pelicula, envolvendo a imagem com o som numa sintonia alucinante.

Num filme que apresenta uma morte como foco principal, não poderia ser esperada outra coisa se não uma caracterização excelente. A realidade da cena não tem como objetivo chocar, mas sim mostrar a crueldade e desprezo com que as mulheres indígenas são tratadas. “Wind River” entende que o choque está no ato em si, portanto, a simplicidade- porém autenticidade- da caracterização assenta bem na mensagem que o filme transmite.

Com um elenco principal já conhecido de Hollywood, esta produção conta com Jeremy Renner no papel de um caçador que atrás da frieza de matar animais é sensível. O papel foi bem atribuído ao ator que já conta com dezenas de filmes no currículo e onde atua quase sempre como protagonista. Já Elisabeth Olsen interpreta uma agente do FBI sensível, inexperiente mas com muita vontade de trabalhar. A sua personagem deveria ter sido mais explorada, mas a interpretação não ficou aquém do filme. A completar o leque de destaque temos Graham Greene, que dá corpo a Ben, o pai da jovem assassinada, que fica destruído por dentro com a morte da filha mas esconde essa dor, transparecendo que era algo que se previa. O olhar vazio, porém dolorido, que mostra em todas as cenas são de aplaudir de pé. Todas as escolhas foram positivas para a qualidade de “Wind River”, no entanto, muitas personagens ficaram por conhecer melhor.

Se o objetivo é assistir a um filme realista (ou não fosse este baseado em factos verídicos), esta produção de suspense, ação e crime é uma ótima opção. A ficção é cada vez mais utilizada para denunciar assuntos do quotidiano e Taylor Sheridan soube abordar bem um caso que era desconhecido para a maioria para que certamente não deixou ninguém indiferente. Só por isto merece todo o mérito para o seu trabalho. Que venham mais “Wind River” para denunciar os males do mundo.

Boa a semana a todos,

Filipe Vilhena

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